1. Todos os tipos de “tecido de bambu” são uma fraude, pois não podem ser feitos de uma fibra natural de bambu, conforme será explicado mais adiante.
  2. As 1.300 espécies de bambu existentes no mundo são constituídas de fibras de celulose (como qualquer planta), além de lignina, hemiceluloses, amido e sílica. As fibras de celulose são minúsculas e tem tamanhos diferentes e o seu formato lembra uma pequena mangueira, pois são ocas e tem em média um comprimento de 2 a 3 milímetros e a largura destas fibras é ainda 100 vezes menor. Só dá para ver em microscópio.
  3. Qualquer fio têxtil, seja ele natural ou artificial, precisa ter um comprimento mínimo de 30 milímetros. Os fios fabricados p. exemplo pela TENBRO têm comprimentos de 38 mm, 51 mm, 76 mm e 86 mm, conforme indicado no site deles (www.tenbro.com). Ou seja, estes fios têm comprimento de 10 a 30 vezes maior do que uma fibra natural de celulose de bambu.
  4. Não existe maneira de emendar as fibras de bambu para elas adquirirem o tamanho necessário para um fio têxtil.
  5. Todos os tipos de “tecido de bambu” usam um fio têxtil chamado de viscose. Também a TENBRO menciona este nome, assim como a Malharia Marles, a Döhler, a Zorba e tantas outras empresas e marcas. Ninguém esconde o fato de que se trata de fios de viscose. Eles têm a cara de pau de dizer isso abertamente.
  6. Mas, no que consiste então a fraude? Acontece que a fibra de viscose é uma fibra artificial, obtida por um processo químico inventado há mais de 100 anos e que usa um produto altamente tóxico chamado de dissulfeto de carbono. Este produto reage com qualquer fibra natural de celulose e desmancha estas fibras, transformando as mesmas em uma massa plástica, parecida com o nylon. Depois ela é processada numa máquina extrusora, que transforma a massa plástica em fios contínuos, que depois são cortados nos tamanhos adequados para fios têxteis. Qualquer fibra de celulose pode ser usada para fabricar a viscose, portanto podem ser fibras de árvores, ou de arbustos, ou de resíduos agrícolas (como palha de trigo, de milho, ou de arroz), mas também pode ser qualquer fibra de celulose de bambu.
  7. Um fio de viscose tem sempre as mesmas características físicas e químicas, independente do tipo de fibra natural de celulose que lhe deu origem. Portanto um fio de viscose de eucalipto é exatamente igual a um fio de viscose de palha de trigo e também é igual a um fio de viscose de bambu.
  8. Então a fraude consiste no seguinte: na China a viscose em geral é feita de bambu, que para eles é uma matéria-prima abundante e barata. Como o processo de fabricação da viscose é poluidor, nos últimos 50 anos diminuiu muito a produção mundial e hoje o setor de viscose é dominado pelos países asiáticos, que pagam salários baixos e não se importam com poluição industrial.
  9. Como no mundo inteiro o bambu goza de uma reputação de produto natural e ecológico (com toda razão, por sinal), algum comerciante inescrupuloso teve a infeliz idéia de divulgar os tecidos feitos de viscose como sendo feitos de fibra de bambu, escondendo a informação de que depois de transformada em viscose a fibra nada mais tem a ver com bambu. Na verdade, ao comprar um tecido de viscose, é impossível saber qual foi a fibra de celulose usada em sua fabricação. E também, mesmo que pudéssemos descobrir a fibra de origem, isto em nada mudaria as características da viscose, que é artificial e poluidora e não natural e ecológica.

    Espero ter sido mais feliz nesta explicação detalhada. Se ainda restar alguma dúvida, por favor, me digam. Não é incômodo nenhum tratar deste assunto repetidas vezes e farei tudo que estiver ao meu alcance para desmascarar este absurdo crime que estão cometendo, tirando proveito da onda ecológica que varre o planeta.  

Respostas a dúvidas mais freqüentes:

  1. Distinção entre viscoses produzidos a partir de matérias-primas diferentes: lamento se não consegui expressar em meu artigo com suficiente clareza, que as fibras naturais de celulose são diferentes entre si, em termos de comprimento, largura, espessura da parede, etc., dependendo do vegetal que as produziu (eucalipto, pinheiro, palmeira, bambu), porém a reação dessas fibras naturais com o dissulfeto de carbono desmancha as fibras de celulose e as transforma em uma massa plástica, que depois é convertida em um fio têxtil de viscose numa extrusora em banho ácido. A massa plástica é igual em todos os casos, não sendo mais possível reconhecer a matéria-prima de origem. Por isso não faz sentido falar em fibra têxtil de bambu, pois a fibra de celulose de bambu foi desintegrada e deixou de ser bambu para ser viscose. E não existe maneira de saber a partir da viscose, se ele foi obtida desta ou daquela espécie de vegetal.
  2. Matéria-prima usada na viscose procedente da China: existem poucas fábricas de viscose no mundo. Normalmente se trata de empresas grandes e não de fábricas de fundo de quintal. Não conheço todas as fábricas de viscose da China, mas aquelas que exportam talvez não ultrapassam meia dúzia, se tanto. Todos os comerciais chineses de fios e tecidos de viscose que eu conheço usam como propaganda o fato de usarem bambu como matéria-prima. Mas não posso afirmar com 100% de certeza que toda a viscose chinesa é feita a partir do bambu.
  3. Sobre a cor natural das fibras de bambu: apenas as fibras de celulose de bambu são naturais e os fios de viscose obtidos a partir de bambu (ou de qualquer outra matéria-prima) são artificiais (sintéticos). Não tenho certeza o que você designa por fibras de bambu. As fibras de celulose (de bambu ou de qualquer outra espécie vegetal) são incolores, quando olhadas ao microscópio, mas a olho nú apresentam uma cor branca, quando puras e isentas de lignina ou corantes. Já os fios de viscose em estado “cru”, isto é sem corantes, também são incolores ao microscópio e brancos a olho nu. Nem a cor, nem qualquer outra variável física ou química vai ajudar você a descobrir a matéria-prima que deu origem a um determinado fio de viscose.
  4. Veja a etiqueta:Todos os tecidos comercializados no Brasil (nacionais e importados) são obrigados a ter uma etiqueta identificando a composição dos fios têxteis usados na fabricação. E para isso a legislação reconhece os diferentes tipos de fio têxtil existentes no mercado mundial. É interessante observar, que entre os diferentes tipos de fio mencionados na lei não se encontra o fio ou fibra de bambu. Por isso os fios e tecidos de viscose importados da China e de outros países asiáticos indicam na etiqueta a palavra viscose e nunca a palavra bambu. Porém, na embalagem externa quase sempre os fios ou tecidos são apresentados como sendo de bambu, o que é uma forma de enganar os consumidores e até mesmo os comerciantes, ou intermediários. O que importa é apenas a informação das etiquetas, que estão sujeitas à fiscalização.

 Florianópolis,  junho de 2007.  Hans Jürgen Kleine -  engenheiro  químico e diretor da BambuSC.

hjkleine@floripa.com.br